Moda

Tendência crochê: feiras em Trancoso e o olhar das costureiras

Carla Mendes · 7 de junho de 2026

Reportagem visual do Areia Visual sobre biquínis e cultura de praia no Brasil.

As imagens que acompanham este texto foram produzidas em campo, com consentimento das pessoas fotografadas.

O mercado de moda praia brasileiro mistura produção industrial e trabalho artesanal. Nas praias do Nordeste, crochê e renda ainda têm presença forte.

Esta edição faz parte de uma série sobre como o biquíni é vivido fora das capas de revista.

Em Trancoso, crochê de biquíni voltou com força entre visitantes de São Paulo. Costureiras locais relatam fila de encomenda para dezembro.

Carla Mendes documentou três ateliês. O trabalho manual leva dias; o preço reflete isso — e gera debate sobre apropriação quando revendedor urbano marca up sem crédito.

Feira em Trancoso acontece à noite, com música baixa e luz amarela. Biquínis pendurados parecem instalação. Carla fotografou sem flash para não interferir no ambiente.

Preço artesanal assusta quem compara com fast fashion. Defensoras do ofício argumentam durabilidade e ajuste sob medida.

Vendedoras relatam que cliente volta no ano seguinte se peça durou temporadas inteiras.

Trancoso concentra turismo internacional e preço alto de hospedagem. Na feira, turista negocia em dólar; costureira local prefere real na mão no dia. Carla ouviu histórias de peça encomendada em dezembro e entregue só depois do Carnaval — prazo faz parte do ofício.

Crochê de biquíni exige linha que não deforme com cloro e sal. Artesãs testam amostra em balde antes de vender. "Cliente não vê isso, mas eu durmo melhor", disse Júlia, 34 anos, que aprendeu com avó em Porto Seguro.

Há debate sobre apropriação: influenciador de São Paulo revende peça sem creditar quem crocheta. Costureiras pedem etiqueta com nome. Carla documentou três casos em que acordo verbal quebrou — matéria não expõe nomes, mas registra padrão.

Feira acontece à noite porque de dia calor impede ficar de pé na areia compactada. Luz amarela de lâmpada define tom das fotos: pele real, fio brilhando, sombra longa.

Biquíni de crochê não serve para surf forte — amarração cede. É peça de caminhada, pôr do sol, foto no trapiche. Função importa tanto quanto estética.

Visitantes perguntam se pode molhar. Resposta honesta: pode, mas enxágue depois e não torça. Instrução repetida dezenas de vezes por noite na feira.

Carla fotografou mãos com calo de agulha — detalhe que campanha de moda apaga. Trabalho manual aparece como heroína, não como cenário.

Próxima edição da série visita ateliê coletivo onde cinco mulheres dividem custo de linha importada. Economia solidária entra na conversa de moda praia.

Se você vende ou compra crochê em Trancoso e quer relatar experiência — com ou sem identificação — escreva para [email protected].

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Carla deixa registro final: tendência passa, ofício fica. Feira de Trancoso continua mesmo quando crochê sai do feed — e isso talvez seja a notícia mais honesta desta reportagem.

Encomenda personalizada exige três medidas: quadril, busto e altura do quadril até cintura. Sem prova presencial, erro é comum — costureiras preferem encontrar cliente ao menos uma vez.

Turista que compra na última noite de viagem pede entrega no hotel. Nem sempre dá tempo. Carla ouviu "não prometemos milagre" de vendedora experiente — frase que resume limites do artesanal.

Linha importada subiu de preço em 2025; ateliês testaram fio nacional com resultado misto. Qualidade varia por lote — transparência com cliente evita devolução na temporada seguinte.

Carla recomenda chegar cedo à feira: melhor luz para ver cor real do fio e conversar sem pressa antes da fila de turistas.